Formigas: O incrível resgate de seus “soldados” feridos em batalhas

As formigas africanas (Megaponera analis) marcham para atacar ninhos de cupins com precisão militar. O resultado da batalha: Vários “companheiros de armas” bem machucados…Todavia, uma nova pesquisa conseguiu demonstrar que estas formigas não deixam nenhum irmão caído para trás, resgatando seus companheiros feridos.

É preciso deixar claro que não se trata de nenhum ato realmente altruísta, disseram pesquisadores para a revista Science Advances. Sem as formigas feridas, o tamanho da colônia provavelmente, seria cerca de um terço menor. Eles contaram que as formigas machucadas frequentemente morrem se não forem levadas de volta para o formigueiro.

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Dois cupins presos a uma formiga (Megaponera analis) após um ataque. Crédito: Frank et al./Sci. Adv. 2017;3:e1602187

Erik Frank, um estudante de doutorado na Universidade de Würzburg, na Alemanha, que liderou a pesquisa disse: “O primeiro pensamento das pessoas é sempre achar que, para as formigas ou outros insetos sociais, tudo o que fazem é para o bem da colônia e geralmente minimizam a importância do inseto individual”. E continua: “Nosso estudo mostra pela primeira vez, um exemplo em que, o bem estar de um indivíduo, é benéfico para a colônia também; não são apenas números”.

As formigas Megaponera analis vivem na África subsariana e se alimentam apenas de cupins. Várias vezes por dia, uma formiga batedora se deparará com uma bando de cupins e correrá de volta para o seu formigueiro, recrutando até 500 formigas para atacar os cupins. Depois da batalha, as formigas carregam então os corpos dos cupins para o seu formigueiro onde irão se banquetear.

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Uma aranha saltadora ataca uma formiga ferida enquanto tenta retornar para o formigueiro. Crédito: Frank et al./Sci. Adv.2017; 3: e1602187

Os pesquisadores notaram que algumas formigas não carregavam cupins mortos, mas formigas vivas, de volta ao ninho.Em uma inspeção mais detalhada, ele percebeu que essas formigas estavam feridas. Algumas tinham perdido uma perna ou uma antena, enquanto outras tinham um ou dois cupins bem irritados agarrados ao seu corpo.

– Qual é o benefício? Por que elas estavam fazendo isso? Os pesquisadores se perguntaram.

Para descobrir, escolheram 20 formigas aleatórias e forçou-as a regressar sozinhas do local de caça ao seu ninho, sem o benefício da ajuda de seus irmãos. O resultado: 32% das formigas feridas morreram na viagem. Das que morreram, mais de metade (57%) foram emboscadas por aranhas saltadoras e outros predadores porque não conseguiam se mover muito rapidamente.

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Uma formiga Paltothyreus tarsatus mata uma formiga com machucada de Megaponera analis, que ainda tem um cupim agarrado nela. Frank et al./Sci. Adv. 2017; 3: e1602187
 Em comparação, apenas 10% das formigas saudáveis foram mortos por predadores enquanto marchavam de volta ao formigueiro, e mais, Frank nunca viu uma formiga carregada de volta ser atacada. Para uma formiga ferida, era claramente benéfico ser resgatado. “Mas esta não é a razão para o qual este comportamento evoluiu,” disse Frank.”Obviamente, precisa beneficiar a colônia como um todo.”

Marcando formigas feridas com tinta acrílica, Frank foi capaz de segui-las em ataques subsequentes. Ele descobriu que 95% das vezes, formigas que foram feridas anteriormente, voltaram à batalha. Frank também descobriu que formigas com cupins presos a eles tinham esses cupins removidos quando voltavam para o formigueiro.Formigas que perderam um membro ou antena passaram algumas horas descobrindo como seus corpos funcionavam sem eles. No dia seguinte, aquelas formigas amputadas podiam correr quase tão rápido como seus companheiros de ninhada ilesos.

Em vários ataques observados, Frank estima que uma colônia típica resgata entre nove e 15 de seus soldados feridos por dia. Uma colônia de formigas M. analis produz apenas cerca de 13 formigas novas por dia. Desta forma, os resgates causam um grande impacto positivo na população geral da colônia de formigas.

Um modelo computacional que os pesquisadores desenvolveram mostrou que sem o comportamento de resgate, as colônias provavelmente seriam cerca de 29% menores. “Em vez de serem forçados a substituir esses trabalhadores feridos por novos, eles podem simplesmente continuar usando os feridos”, disse Frank.

Outras investigações revelaram que uma substância proveniente de glândulas mandibulares das formigas machucadas parecia impulsionar o comportamento de resgate. Os feromônios liberados pela glândula são uma mistura de dissulfeto de dimetilo e trissulfeto de dimetilo. Formigas saudáveis manchadas com estes compostos prontamente resgataram seus companheiros feridos.

Nos mamíferos, especialmente humanos, a empatia é frequentemente usada para explicar comportamentos heroicos ou úteis para um grupo etc. A descoberta de feromônio revela que as formigas têm evoluído de outra maneira para ajudar prontamente seus companheiros. “Temos a evolução convergente de dois mecanismos diferentes com o mesmo objetivo final”, disse Frank.